Desafios e tendências da educação na Amazônia

A Amazônia tem sido assombrada por inúmeros fantasmas desde há muito. Um dos mais assombrosos e peçonhentos desses monstros revela-se nos índices nacionais de avaliação escolar. Em várias das métricas brasileiras sobre educação, a escolas do território têm apresentado um desempenho abaixo das outras regiões do país, revelando um quadro de exclusão insustentável.

 
Num estudo recente, ainda em construção, a pesquisadora Cida Bento (Centro de Estudos das Relações de Trabalhos e Desigualdades CEERT) apontou para esses pontos de atenção com muita clareza. 
 
Os exames nacionais não são suficientes para traçar um diagnóstico da educação na região. Ao contrário, podem ser questionados quanto à sua validade, ao buscarem uma avaliação realidades escolares muito distintas a partir do estabelecimento de médias nacionais de rendimento. Do modo como estão concebidas, essas avaliações pressupõem um sistema padrão de ensino, operando de forma monolítica pelos quatro cantos da nação. Claro que essa hipótese não é verificável. Daí o vazio de sentido de atos como a afixação de placas nas portas de escolas, com suas médias de desempenho em exames nacionais.
 
Aproximando-se do problema, é possível fazer emergir, pelo menos em parte, a complexidade de se conceber e realizar educação de qualidade na Amazônia.
 
Ao pensar esses desafios da educação na Amazônia, a professora Lucineide Pinheiro (Universidade Federal do Oeste do Pará) os organizou em quatro grandes grupos: os Desafios da Natureza, os Desafios Sociais, os Desafios Epistemológicos e os Desafios Ambientais.
 
Na Amazônia, é evidente a forte presença da natureza, que intervém de maneira avassaladora na vida das pessoas. É o que acontece nas regiões de várzea, por exemplo, onde se sucedem ciclos de inundação e seca, com terrenos frágeis e úmidos, sobre os quais é inviável instalar edifícios escolares em alvenaria e também garantir que os mesmos estarão no local no próximo ano letivo. Nestas partes da Amazônia os grandes rios são os senhores do tempo e da vontade. Redesenham constantemente seus cursos. Retirando terras, fazendo desaparecer vilas inteiras. Ou criando ilhas, novas áreas, que passam a ser ocupadas e cultivadas pelas populações ribeirinhas.
 
A diversidade de línguas, etnias e tradições que cercam as populações locais é outro ponto de destaque. As populações amazônidas são de uma variedade que envolve quilombolas, migrantes, ribeirinhos, assentados, povos indígenas. Todos com seus hábitos, necessidades específicas em relação à educação, habitando partes da floresta com particularidades que transformam os desafios sociais num quebra-cabeças quase insolúvel.
 
No campo epistemológico também existem enormes desafios. A composição dos currículos, o domínio dos diferentes idiomas falados na região, a necessária articulação entre conhecimento tradicional e saber acadêmico, são exemplos que concretizam as questões aqui envolvidas. Esse último destaque está diretamente relacionado ao desafio ambiental. Pense-se, por exemplo, no transporte escolar pelo Rio Pedregoso (um dos rios da região). Apenas um piloto de barcos experiente da região é capaz de conduzir em seguranças as crianças até a escola, por este rio cheio de rochas e perigos. Mas, como contratá-lo, já que ele não está apto a participar de um concurso público? Como remunerá-lo se apenas se pode remunerar aos funcionários contratados por concurso?
 
A professora Sandra Athayde, de Moju-PA, também aponta uma grande lista de desafios. Dentre eles estão a baixa formação dos educadores que atuam na região e a também baixa densidade tecnológica. "No Pará há mais professores de nível médio que professores com formação superior", conta Licurgo Brito, Diretor de Ensino Médio do Estado do Pará, formação, portanto, é um tema fundamental a ser enfrentado e o Estado tem enfrentado essa questão com as mangas arregaçadas. Como os gestores estaduais da educação têm se esforçado, o Pará é um dos estados brasileiros que mais conquistou recursos junto ao PARFOR, o programa de incentivo à formação docente criado pelo Governo Federal.
 
A falta de acesso à energia elétrica e às tecnologias de comunicação e informação dificultam políticas contemporâneas de inclusão. Há o desafio de universalização da escola na Amazônia: como garantir acesso a todas as crianças, adolescentes e jovens às escolas, já que na região as características naturais encarecem e complicam a mobilidade de professores e alunos, a alimentação escolar, toda a infra-estrutura necessária à garantia do direito à educação. As pedagogias e metodologias de ensino necessitam ser repensadas. Há regiões em que os horários mudam todos os dias, em função as marés. A construção de edifícios escolares é difícil e demorada. Os projetos-padrão, oferecidos pelo governo brasileiro, se mostram bastante inadequados. Por outro lado, as alternativas que estão sendo experimentadas, como a escola multisseriada e a pedagogia da alternância, ainda não estão suficientemente estudadas para que possam ser admitidas com tranquilidade por todos os setores envolvidos com a educação. Nessas condições é difícil admitir que as autoridades nacionais queiram impor um custo médio por aluno em todo o Brasil. Um litro de gasolina no meio da amazônia chega a custar o triplo do que custaria em uma região mais ao Sul do país, para citar apenas um exemplo de justificativa para a defesa de um custo mais alto por aluno, no território amazônico.
 
O Canal Futura está comprometido com essa discussão e realizará, em parceria com a Fundação Carlos Chagas, uma série de 10 programas Sala de Notícias abordando desafios e tendências da educação na Amazônia. A intenção é fazer interagir eixos analíticos e temáticos tais como a educação no campo, a formação de professores, a dinâmica de formação dos currículos, os regimes naturais da região amazônica e suas ralações com a qualidade da educação. Na série serão aprofundados temas como mobilidade e educação; adequação metodológica e regionalização do processo escolar; educação, desenvolvimento e ocupação do território amazônico; educação na floresta e as tecnologias de informação e comunicação; redes e políticas públicas para a educação na Amazônia.
 
A intenção é demostrar que a educação é um problema grave na região, mas extremamente específico. A educação deve ser vista como um direito. Um direito de sujeitos sociais da educação, o que fortalece o papel da participação social nos processos e nas tomadas de decisão sobre educação.
Ao experimentar situações mais extremas, a Amazônia inspira o repensar a educação de todo o país.