Faces Gloriosas

Vou publicar, sem autorização de imagem, uma foto de meus primos e meu irmão durante a recente festa de bodas de ouro de meus pais. É isso mesmo, meus pais completaram 50 anos de casados no último dia 19 de dezembro, mas as comemorações aconteceram no período do natal, quando todos poderiam estar presentes nos 4 dias de festa. Festa do interior tem dia e hora para começar, mas só termina quando a comida e a bebida chegam ao fim.

É claro que fizemos muitas fotos. Só aqui no meu computador tenho quase mil fotos. Várias delas me chamam a atenção. Às vezes, menos pela qualidade técnica e mais pelo momento. A foto é o momento e depois sua expressão estética. Isso tem se tornado cada vez mais evidente com a rápida popularização das tecnologias de obtenção da imagem no século passado e nesse também. Ora, cada vez é mais fácil produzir imagens, inclusive imagens de si mesmo. Isso provoca uma proliferação infernal de imagens de todos os gêneros. Uma poluição visual crescente com forte presença do autoretrato que, assim como o reality show na tv, parece predominar enquanto gênero narrativo na produção de imagens fotográficas do novo milênio.

Quando levamos esses pontos em consideração, o momento em que a imagem fotográfica é produzida ganha especial destaque e até mais importância que a expressão estética. Na foto que quero mostrar, o que me encanta é a sintonia das faces.

 

 

Reparem nas faces, nos sorrisos, na coincidência de sentimentos que se pode identificar na feição, na posição dos olhos, no sorriso e na atenção em comum. Eu não consigo olhar para essa foto sem pensar na 'antropologia da face gloriosa' de Arthur Omar. Desses momentos de gloriosa transcendência coletiva que só experimentamos algumas vezes. É a felicidade? Esse aparente descolamento do real em direção a uma outra dimensão da nossa existência individual e coletiva. Vejo a foto e tenho uma sensação de contentamento, que escapa destes rostos e me invade pela fruição. É isso o que eterniza uma imagem. Nisso está também sua beleza, para além das formas, do equilíbrio dos volumes e da correção da exposição. O belo é também aquilo que produz sentido. O que é carente de sentido é 'feio', vazio, chega a ser desnecessário.