Gabo

A Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano lançou, em novembro de 2012, uma antologia de textos jornalísticos do seu criador: Gabo Periodista

O volume de capa dura e folhas finas de papel cuchê bem costurado, chegou-me às mãos através do Ricardo Corredor Cure, um dos dirigentes da FNPI em Cartagena de Índias, na Colômbia caribenha.

Não tenho dúvidas de que foi idealizado e produzido como muito do que se faz nesta antiga cidade da colonial. Com tempo e dedicação. Com o sabor amarronzado do rum e dos charutos que ali se enrolam à maneira da tradição. Com os fumantes costumeiros encomendando nas casas especializadas a mistura de folhas de fumo que mais lhes agrada.

Palavra após palavra, frase após frase, esse misterioso García Márquez jornalista vai conquistando o leitor. É uma faceta desconhecida, pouco lida, daquele que no Brasil e no mundo tornou-se conhecido principalmente pelo clássico "Cem anos de solidão" e pelo prêmio Nobel de literatura.

O livro me paquerava há mais de um mês, fitando-me longamente todas as noites, com sua presença dominante sobre a mesa de cabeceira onde o deixei. 

Por fim, na oportunidade de uma viagem até a casa dos meus pais, levei-o enfiado numa sacola, onde viajou injustamente misturado a cuecas e pares de meias, a roupa de viagem mais básica que existe, para quem se veste com jeans, tênis e camiseta branca.

Entre uma espera e outra a que somos levados na vida – na sala de embarque, no voo, na recepção do hospital enquanto meu pai era operado – fui mergulhando nessa outra viagem à qual a obra nos conduz.

 

Pensei em várias maneiras de compartilhar um pouco do prazer que sinto, ainda agora, quando deitado no escuro sobre uma cama improvisada no antigo quarto de criança de meu sobrinho em Ribeirão Preto, olho para o teto, onde brilham adesivos de estrelas e naves espaciais. Fitando esse vazio universal, vencido pelo cansaço da viagem, escolhi o modo mais arriscado de fazê-lo, incluindo aqui uma tradução livre e compartilhando com o leitor um dos pequenos textos da coluna de García Márques no diário El Heraldo de Barranquilla, quando ainda tinha vinte e poucos anos de idade. Então segue:

O ônibus das nove

Nove horas da manhã é quando as mulheres gordas pegam ônibus. Parecem uma alegre comissão de madonas bíblicas. É quando encontramos nos transportes públicos algo como o aroma e o sabor legítimos da espécie humana. Um odor que não é possível confundir e que tem a mesma intensidade do ar matinal dos quartos onde duas pessoas dormiram. Creio que é esse aroma, mais que a clientela definida e invariável dos ônibus das nove da manhã, o que nessa hora os converte em algo alegremente familiar e proporciona a impressão de que cada passageiro está conversando com seu vizinho, de um quintal para o outro, por cima das cercas.

A essa hora, quando a carga é a mais incômoda e difícil, é justamente quando os motoristas têm melhor humor. Não há nada de contraditório nisso. É como se eles pensassem: "Aqui todos vamos  ao mesmo passeio". Não sei o que as estatísticas dizem a esse respeito, mas me parece que é essa a hora em que existem as menores possibilidades de acidente. Os motoristas então, mais que utilizando sua experiIencia e os conhecimentos que têm, trabalham na base da inspiração, num sentido improvisado, mas muito mais seguro. Até que num momento culminante do alvoroço coletivo o condutor chegue a ceder os comandos do veículo à mais gorda das mulheres e lhe diga: "Dirija um pouco, senhora. Aqui todos temos os mesmos direitos".

Alguém já ouviu alguma vez uma conversa entre mulheres gordas? É impossível conceber um outro espetáculo com tal saudável alvoroço. Ninguém ri melhor que duas mulheres gordas. Nem ri por último, porque elas nunca acabam de rir. Mais de duas mulheres gordas enredadas numa mesma conversação fazem pensar que é no volume e na densidade que reside o segredo da boa saúde. Até se pensa que não é a gordura, e sim a doce melcocha o que lhes afoga o coração. Sempre aparentam ter menos de trinta anos, e que necessitam tomar algumas precauções para que não lhes escape a força da gravidade. Será essa a metafísica dos globos?

Às nove da manhã fica-se sabendo, nos ônibus urbanos, o complemento anedótico, a parte mais humana das notícias locais, esse comadrio sadio que se omite dos jornais, talvez porque, em geral, somos nós, homens e magros, que fazemos os jornais. Através dos diários se sabe que um ladrão invadiu uma casa e roubou um cofre com joias. No ônibus das nove se conhece a duvidosa procedência das joias e o estado do pijama com o qual a dona da casa saiu correndo a chamar o policial da esquina. Às usuárias do ônibus das nove chama mais a atenção, mais que as dramáticas circunstâncias em que se cometeu um crime, o susto que levou uma delas quando viu o tamanho do revólver. Na verdade, assim a notícia fica mais interessante. Ainda que um ou outro se sinta inclinado a justificar o ponto de vista do criminoso, apenas para que as mulheres dos cestos de pescado, das galinhas e dos maços de legumes tenham sempre um susto para contar no ônibus das nove. Se a humanidade fosse composta por mulheres gordas, talvez não existissem tantos problemas. O universo fosse algo completamente doméstico. 

[Gabriel García Márques, Coluna "La Jirafa" em: El Heraldo, Barranquilla, 22 de setembro de 1952]